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Reequilíbrio de Contrato: Como a Crise Logística Salva sua Margem

Uma licitação ganha no Brasil pode se tornar um prejuízo financeiro por causa de um míssil disparado no Oriente Médio ou de uma seca no Canal do Panamá? A resposta, infelizmente, é sim.

Vivemos a era da interdependência radical. Se a sua empresa fornece equipamentos de TI, insumos hospitalares, peças automotivas ou até mesmo fertilizantes para órgãos públicos, o seu preço final é refém das rotas comerciais globais.

Como consultor, tenho visto empresas que venceram pregões com margens saudáveis entrarem em desespero meses depois porque o frete marítimo triplicou ou o dólar disparou devido a tensões geopolíticas. Mas o que muitos desconhecem é que a legislação brasileira protege o contratado dessas variações — desde que você saiba como pedir.

O Cenário Real: A Fragilidade das Rotas (Suez e Panamá)

Não é segredo que o comércio global depende de “gargalos” (choke points). As instabilidades recorrentes no Mar Vermelho (rota de acesso ao Canal de Suez) e as restrições hídricas no Canal do Panamá criam um efeito sanfona no custo do frete internacional.

Para o licitante brasileiro, isso se traduz em:

  1. Aumento súbito no custo do insumo importado.
  2. Atrasos na entrega (o navio precisa dar a volta na África, adicionando 10 a 15 dias na viagem).

O pregoeiro, sentado em seu escritório em Brasília ou São Paulo, muitas vezes não acompanha essa dinâmica. É dever da empresa educar o órgão público através do processo administrativo correto.

A Diferença Vital: Reajuste x Reequilíbrio

Para não perder dinheiro, você precisa dominar essa distinção técnica:

  • Reajuste: É a correção monetária automática (geralmente anual) baseada em índices inflacionários previstos em contrato (IPCA, IGPM). Ele cobre a inflação ordinária.
  • Reequilíbrio (Revisão): É o mecanismo para restabelecer a margem de lucro original quando ocorre um evento imprevisível ou de consequências incalculáveis.

A Lei 14.133/21 (Art. 124, II, alínea ‘d’) é clara: se houver alteração nos custos devido a fatos supervenientes (como uma crise logística global que altera preços de mercado), o contrato pode e deve ser alterado para manter o equilíbrio inicial.

Como Provar o “Nexo Causal” e Salvar seu Contrato

Não basta enviar um e-mail dizendo “o dólar subiu” ou “o frete está caro”. O órgão público negará pedidos genéricos. Para obter um reequilíbrio com sucesso, montamos um dossiê técnico baseado na Teoria da Imprevisão:

  1. A Prova do Fato: Notícias de veículos renomados e boletins de logística internacional comprovando a crise na rota específica (ex: fechamento de estreitos, desvio de rotas).
  2. A Planilha de Custos Aberta: Mostramos quanto custava o insumo na data da proposta (quando você ganhou a licitação) e quanto custa hoje (notas fiscais de compra, 3 orçamentos de fornecedores/frete).
  3. O Cálculo Matemático: Demonstramos que o aumento não foi apenas uma flutuação normal de mercado (risco do negócio), mas uma onerosidade excessiva que inviabiliza a execução.

O Risco de Não Agir

Muitos empresários, com medo de “queimar o filme” com o órgão público, absorvem o prejuízo e tentam entregar o objeto de qualquer jeito. Isso geralmente leva à falência do contrato, multas por inexecução e suspensão do direito de licitar.

Pedir o reequilíbrio não é um favor, é um direito constitucional. O Estado não pode enriquecer ilicitamente às custas do empobrecimento do particular.

Conclusão

A geopolítica não é apenas assunto de telejornal; ela define a lucratividade do seu contrato administrativo. Se os ventos na Ásia mudaram e o custo chegou na sua porta, sua estratégia jurídica precisa mudar imediatamente.

Não espere o prejuízo se consolidar. A documentação correta transforma uma crise global em uma repactuação justa.

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